TANCREDO
E ULYSSES OPOSTOS QUE SE ATRAIAM NA CAMPANHA DAS DIRETAS JÁ. Tancredo queria ser Presidente Ulysses
queria ser Presidente e um precisava do outro para o sucesso da campanha das
Diretas e os ambiciosos políticos sabiam que uma declaração de candidatura
precoce seria suicida, pois, seria vista como um oportunismo e casuísmo e
diante deste quadro ambos seguiram juntos na campanha dançando a mesma música e
não deixando que os boatos da imprensa influenciasse esta estranha “amizade”. O
que interessa para os fins deste trabalho é que tanto Ulysses e Tancredo com
suas divergências ficaram juntos até a votação do Colégio Eleitoral e as suas
desavenças não prejudicaram o sucesso da campanha das Diretas Já.
Ademir Andrade relata em depoimento que
Tancredo Neves era um homem conciliador e sempre deixou claro que tinha
ambições para ser Presidente da República e todos os seus movimentos eram
públicos e de ciência de Ulysses Guimarães. Por isso, Ademir Andrade afasta
qualquer argumento de que Tancredo tenha traído o movimento das Diretas já.
GERSON PERES DEPUTADO FEDERAL (PDS/PA) e
líder do PDS na Câmara não estava disposto a deixar o partido como o vilão do
processo democrático e entrou em campo para tentar unir o PDS para que a
Eleição para Presidente fosse indireta e o parlamentar paraense fez uma forte
declaração para defender suas convicções: “Vou comandar a guerra contra as
Diretas” e no mesmo dia declarou apoio a Paulo Maluf no colégio Eleitoral o que
disparou a ira do adversário de Maluf o Mário Andreazza. É pertinente registrar
que GERSON PERES ajudou pela rejeição da emenda com a sua ausência no plenário.
GERSON PERES era um homem de partido e
tinha uma liderança nata e conseguiu apoio formal de 186 Deputados Federais
contra a Emenda Dante de Oliveira.
Franco Montoro sentiu o golpe de Gerson
Peres e sabia que precisava do apoio de dissidentes do PDS para a aprovação da
emenda e com o manifesto dos 186 parlamentares apresentado pelo Gerson Peres
Montoro começou a tratar o assunto das Diretas como se fosse uma pauta
suprapartidária a fim de que o PDS ficasse livre para a votação em plenário.
Os políticos experientes como Ulysses
Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro e outros sabiam que a campanha das
Diretas já deveria manter o foco e qualquer oportunismo político seria mal
visto pela população e poderia prejudicar o sucesso da campanha. Porém, no
fundo todo mundo tinha ambição pessoal em ser Presidente da República e os
interessados no poder sabiam que a Campanha das Diretas seria um passo
importante para que estes atores políticos conseguissem o seu feito. E a sede
pelo poder acabava extravasando e os deslizes eram comuns. Ulysses Guimarães em
viagem protocolar pelos Estados Unidos encontra-se com um repórter da rede
globo e o jornalista fazendo o seu papel faz a pergunta certa e Ulysses é que
dar a resposta errada ao declarar abertamente que será candidato do partido em
uma eleição direta. A declaração de Ulysses chega ao Brasil e ao comando do
partido e causa uma destruição na organização da campanha das Diretas
principalmente nos partidos mais esquerdistas. A revolta com a declaração de
Ulysses é que havia um acerto entre todas as lideranças de que ninguém iria se
declara candidato até a votação da Emenda Dante de Oliveira, portanto, a
entrevista de Ulysses foi considerada uma traição pelos apoiadores da Emenda
Dante de Oliveira. Franco Montoro que também queria ser Presidente começa a
travar com Ulysses uma disputa de egos e vaidade extrema e tais movimentos só
prejudicavam a unidade partidária.
Leonel Brizola que também queria ser
Presidente igual a Tancredo Neves fazia jogo duplo em relação às diretas e hora
declarava apoio e outra hora falava em acordo com os militares e todos sabiam
que os militares eram favoráveis a eleições indiretas. E este oportunismo
político foi duramente cobrado na carreira de Brizola que jamais chegou perto
do Palácio Planalto.
Teotônio Vilela era uma unanimidade na
campanha das Diretas Já e a sua morte trouxe uma calmaria aos ânimos exaltados
dos caciques do PMDB que deram uma trégua em suas trocas de farpas pela
imprensa, e coube a Fafá de Belém homenagear Teotônio Vilella em um comício
ocorrido na cidade de Olinda.
A Rede globo não transmitia os comícios
mais a mesma envergonhada divulgava alguns comícios, inclusive o de Curitiba em
que compareceram mais de 50 mil pessoas e o sucesso se deu graças ao empenho do
Governador José Richa que também tinha ambições em ser Presidente da República.
E a audiência da rede globo era a maior do país e mesmo a empresa não tendo
apoiado abertamente a campanha a mesma com a sua estrondosa audiência só em
noticiar os comícios ajudava para o sucesso da campanha, pois, todo brasileiro
queria participar dos comícios. A família Marinho proprietária da Rede Globo
mantinha contratos com o governo militar e não tinha qualquer pretensão em
mudar o quadro político. E mesmo sendo usada como relações públicas do Planalto
a emissora jamais puniu seus atores pelo fato de participarem dos comícios.
A Rede Bandeirantes com toda a sua limitação
tecnológica fazia a cobertura dos comícios e o de São Paulo foi transmitido ao
vivo. O proprietário da emissora, João Sayad, sofreu muita pressão para
abandonar a campanha e o Planalto usou de sua força institucional para
prejudicar a Bandeirantes e a mesma já se preparava para instalar uma sede em
Brasília quando veio a notícia que foi negado o alvará de funcionamento da Rede
Bandeirantes com isso a empresa sofreu um sério dano em seu capital financeiro.
Todos os comícios ocorriam sem qualquer
incidente e mesmo com a presença de milhares de pessoas não havia qualquer
briga ou agressões em que pese os acalorados discursos. Houve um problema em
Manaus que merecerá o registro posteriormente. E a cada comício em uma cidade
brasileira a população brasileira ia mostrando interesse e a adesão espontânea
pela aprovação da Emenda Dante de Oliveira ia aumentando e o governo de João
Batista Figueiredo começava a se preocupar com o sucesso da campanha.
Ulysses Guimarães sentia que a população
pegou gosto pelo movimento das diretas já e no calor de um discurso fez uma
promessa que jamais cumpriu “se não houver eleições diretas renunciarei o meu
mandato”.
Paulo Maluf (PDS/SP) em total falta de
sintonia com a voz das ruas continuava sua campanha pelas eleições indiretas,
pois, o mesmo sabia que a sua chance estava no Congresso e jamais o povo iria
elegê-lo em eventual eleição direta. Aliás, em 1989 a população brasileira deu
o troco cívico em Maluf e concedeu uma pífia votação ao senhor Paulo Maluf nas
primeiras eleições diretas pós 64. Maluf, político experiente sabia que a
possibilidade em ser Presidente da República só seria possível pela via
indireta, ou seja, no Colégio Eleitoral.
Em Porto Alegre Pedro Simon, José Fogaça
e Odacir Klein organizaram um dos maiores eventos públicos da cidade e os
oradores da noite animaram a multidão. Martinho da Villa animou a noite, e
Montoro esqueceu as brigas com Ulysses e apareceram abraçados no palanque até
Tancredo Neves apareceu neste abraço público. A mensagem deixada era de que o
PMDB estava unido.
Após
o comício Tancredo Neves reuniu com Ulysses e trabalhando com o pessimismo
disse a Ulisses que caso a Emenda Dante de Oliveira fosse rejeitada o mesmo
seria candidato no Colégio Eleitoral. Ulisses ficou bravo e que isto não seria
possível, pois, o PMDB não poderia perder o governo de Minas que era importante
colégio eleitoral para ser abandonado pelo partido. A preocupação de Ulysses
tinha pertinência já que Tancredo teria que renunciar ao Mandato de governador
para poder concorrer no colégio eleitoral e Ulysses sabia que naquele momento
seria impossível Tancredo vencer no Colégio Eleitoral, pois, a maioria era
governista.
Tancredo Neves não concordou com Ulysses
e mesmo que ele tivesse um único voto no colégio eleitoral o PMDB tinha que ter
um candidato para que o povo brasileiro soubesse que o PMDB iria continuar
lutando para que fosse restabelecido o processo democrático. E Tancredo na
tentativa de convencer Ulysses disse que o governo de Minas ficaria com Hélio
Garcia, pessoa de confiança e boa gestora. Ulysses encerrou a conversa dizendo
que a Emenda Dante de Oliveira iria passar e que Tancredo estava perdendo tempo
com esta conversa.
Em Salvador Ulysses e Tancredo unidos no
comício foram muito aplaudidos e o responsável pelo sucesso do evento foi o
Waldir Pires, e pela primeira vez os partidos comunistas pediram para que
pudessem sair da clandestinidade. E Ulysses no alto do elevador Lacerda apoiou
os comunistas nesta reivindicação.
LULA ainda era um Sindicalista desconhecido
no Brasil mais em São Paulo tinha respeito da classe operária e a sua fala era
importante para àquele segmento social e esta liderança do futuro Presidente do
Brasil naquele momento era de muita importância para o sucesso da campanha das
Diretas. Em São Paulo os petistas estavam em grande número por ocasião do
comício e os mesmos estavam organizando uma sonora vaia ao Governador Franco
Montoro quando o mesmo começasse a falar. Lula experiente e fundador do partido
sabia que esta atitude dos militantes seria prejudicial a campanha que
precisava demonstrar uma unidade e se as divergências ideológicas viesses a
tona o movimento poderia fragilizar e a população poderia abandonar a campanha
das diretas. E Lula quebrou o protocolo e falou por primeiro e abraçado com
Franco Montoro foi aclamado pela multidão e disse que naquele momento não havia
espaço para vaias e que todos deveriam ficar unidos pela causa das diretas. Ao
encerrar seu discurso Lula ele foi aplaudido intensamente e passou o microfone
ao Franco Montoro que não recebeu nenhuma vaia. Lula salvou Montoro e o sucesso
do comício em São Paulo que reuniu mais de 300 mil pessoas e o Planalto volta a
se assustar.
O Planalto usa os canais oficiais em
especial os telejornais da rede globo para desqualificar o comício de são Paulo
e ironiza a participação de artistas da globo de que os mesmos só iam aos
comícios, porquê, estavam recebendo comissão. A reação dos atores foi imediata
e em declaração conjunta os mesmos disseram que nada recebiam para comparecer nos
eventos e o Osmar Santos narrador oficial dos jogos da seleção brasileira na TV
Globo trouxe alegria para os comícios e também se encarregou em contradizer o
Planalto ao dizer que nunca recebeu um centavo para comparecer nos comícios e
mais tarde após sair da rede globo e dar lugar ao Galvão Bueno, Osmar Santos
declarou que jamais a Globo lhe proibiu em comparecer nos comícios e a família
Marinho sempre soube separar as coisas e nunca exerceu qualquer tipo de censura
ao que o seu Ilustre funcionário falasse nos comícios.
São Paulo sempre foi e sempre será uma
referência nacional para a análise de qualquer movimento popular e o Comício da
Sé realizado em Fevereiro de 1984 após o sucesso ficou conhecido como a
“ressaca cívica” do Brasil. O termo pegou e a população ao lembrar do comício
de São Paulo logo lembrava da “ressaca” cívica e o Planalto mais uma vez
percebia que a vontade popular estava no sentido em querer eleições diretas já
e não estava disposta a aguardar 1989 para votar para Presidente.
Por incrível que possa parecer Franco
Montoro não manifestou alegria com o sucesso do evento na capital da cidade do
estado que governava e a tristeza de Montoro não foi vista com bons olhos,
pois, o mesmo deixou a mensagem que o governador paulista não estava convicto
de que queria eleições diretas. Como o estranho Governador nada disse sobre a
sua reação deixou campo para as especulações e a primeira foi a de que o mesmo
tinha medo de uma retaliação dos militares ao seu governo e as verbas federais
parassem de ser distribuída aos paulistanos. No curso de toda a campanha das
Diretas todos os governadores do PMDB tinham que conviver com as acusações de
que conspiravam contra a campanha das Diretas, porém, sem o apoio destes
Governadores a campanha das Diretas não teria alcançado o sucesso cívico que
atingiu.
Outra versão é a de que Franco Montoro
era egoísta e após o sucesso do evento o mesmo não queria que fosse realizado
nenhum outro evento em São Paulo, pois, o Governador queria ser lembrado pelo
sucesso do primeiro comício e temia eventual fracasso de um segundo evento. O
Governador esqueceu que a população compareceu ao evento por vontade própria e
não por lealdade ao governador, o político paulista e muitos outros sempre
tratam o povo como um objeto a ser conduzido conforme as suas vontades, e neste
caso específico o Franco Montoro realmente se convenceu que 300 mil pessoas
foram ao comício só por que ele estava lá. E a memória do político paulista era
fraca, pois, ele já tinha esquecido que o Lula evitou que o vaidoso governador
paulista tomasse uma sonora vaia.
Todos os políticos que se aproveitaram da
campanha das diretas já para algum salto político oportunista se deram muito
mal em suas carreiras, e o Franco Montoro é um deles que jamais chegou a ser
cogitado para ser Presidente da República como cogitava. Ulysses mesmo sendo
amigo de Montoro não perdoou o colega de partido e não aceitava a omissão do
Governador. E a FOLHA DE SÃO PAULO jornal com prestígio nacional na década de
80 acusou Montoro de que o mesmo só queria surfar nos louros da vitória e os
seus planos eram particulares e não incluía a população brasileira. A História
mostrou que Montoro errou e jamais se tornou uma unanimidade nacional.
A esquerda radical brasileira também não
se entendia e todos queriam se aproveitar do sucesso da campanha das diretas
para tirar algum lucro político do momento que o Brasil passava e o Brizola era
o primeiro oportunista e queria liderar a esquerda, o problema é que o PT e o
Pc do B não queriam ser liderados pelo Brizola, e neste clima de vaidades e
projetos privados a campanha das diretas ganhou vida própria e se movimentava
de acordo com a vontade da massa e não dos políticos.
A
cada comício, a cada cidade, a cada manifestação a população espontaneamente ia
as ruas com a sua bandeira do Brasil e com a simples e assimilável frase que
todos entendiam “Eu quero votar para Presidente”. O governo Federal sabia que
não podia desconsiderar que o movimento ganhou vida própria e a oposição não
mais conseguia controlar os populares. E alguns isolados incidentes nos
comícios passaram a ser o pretexto para o governo federal intervir e os
organizadores da campanha ficaram receosos quando foi ameaçado que o governo
poderia utilizar do expediente de estado de emergência. Se o Planalto
confirmasse a sua ameaça qualquer cidadão poderia ser preso e isso iria
enfraquecer a campanha, pois, ninguém iria sair de casa para participar de um
comício e sair de lá preso. Ulysses Guimarães foi aguerrido e disse que se era
para prender que prendesse o Presidente do PMDB, ou seja, o próprio Ulysses. A
declaração de Ulysses é forte, porém sem efeito na população pobre e de classe
média que era bem esclarecida e sabia que poderia ser preso e um Deputado
Federal não seria preso.
O Deputado Amaral Neto (PDS/RJ) é quem
mandava os recados do Planalto de que a qualquer momento poderia ser Decretado
o Estado de emergência. Mais uma vez o ambíguo Tancredo Neves entra em ação
para desta vez agradar o Planalto e dizer que as eleições Diretas poderiam
gerar um atraso civilizatório ao Brasil. E na contra mão de Tancredo Ulysses
lança a “marcha para Brasília” e que o PMDB não podia ter medo de ameaça do
governo.
OsMilitarespediramreuniãocomoPresidentedaRepúblicaalertandoqueos
movimentos das Diretas Já tinham
inspiração política e que medidas enérgicas deveriam ser tomadas. Os Militares
enquadraram Figueiredo e disseram que em hipótese alguma seria dado apoio a
reeleição do atual governante, só para lembrar que esta era uma idéia
oportunista de Brizola, os Militares obrigaram Figueiredo a se empenhar que o
PDS trabalhasse para a rejeição da Emenda Dante de Oliveira, pois, a aprovação
da Emenda seria um risco para a Segurança Nacional.
Os Ministros Militares pediram muito mais
e sugeriram ao Presidente Figueiredo que o mesmo não aceitasse dissidentes e
que Deputados traidores deveriam ser expulsos do partido, este recado era
também para o Vice Presidente Aureliano Chaves que declarava todo o apoio a
Emenda Dante de Oliveira. Esta reação dos militares durante todo o processo da
campanha das diretas foi o mais explícito e formal.
Aureliano Chaves não recuou e continuou
fazendo campanha para as diretas e sem qualquer retaliação por parte do
Presidente e o vice Presidente se defendia dizendo que o governo não poderia
esconder a realidade dos fatos de que a população queria votar para Presidente.
Marcos Maciel o Deputado Pernambucano
recuou e nunca mais deu declarações de apoio às eleições Diretas. Já o MALUF
comemorava a reação dos militares e a seu favor levou fotos do comício em São
Paulo onde apareciam bandeiras de partidos comunistas, por isso os militares
estavam com razão em não concordar com as eleições diretas. E nesta mesma
reunião Aureliano discutiu com o controverso Maluf e disparou que o Brasil
sempre teve comunista e teríamos que conviver com isso, e, além disso, a foto
era um close e representava uma parcela mínima da população que compareceu ao
comício.
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