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sábado, 23 de fevereiro de 2019

A REVISTA VEJA E A CAMPANHA DAS DIRETAS

Revista Veja e seu posicionamento em relação às diretas
           
            Um capítulo só para tratar da Revista Veja se faz necessária, porque, a revista era a mais vendida no país e o seu editorial sempre tinha força persuasiva junto as autoridades política. A revista ao mesmo tempo além de contar com milhões de eleitores tinha outra fonte de receita que eram os anúncios do governo.
            E diante desta dependência de verbas federais para se manter a Revista não tinha qualquer interesse comercial em mudar esta situação e sendo assim, no início das campanhas das diretas a mesma deixou claro que iria caminhas sua linha editorial contra a campanha das “DIRETAS JÁ”.
            A campanha das Diretas Já tinha sido lançada desde 27.05.1983 e a revista fez a campanha de desinformação e nada informou a população brasileira sobre a proposta de Emenda Constitucional que iria permitir que o povo brasileiro voltasse a escolher o Presidente da República.
            A revista só mencionou a pauta das diretas em sua edição de número 772 do dia 22.06.1983 (p. 40-41), portanto, um mês depois do início da campanha e a matéria que tratou do assunto foi de forma velada e irônica e com o intuito em prejudicar a campanha logo em sua largada.
            A matéria do dia 22.06.1983 criticou Ulysses Guimarães que era um político com idéias atrasadas e que o partido estava interessado em derrubar o político paulista e a revista com clara intenção em influenciar o partido já sugere que o melhor nome para substituir Ulysses Guimarães na presidência do partido seria o Deputado baiano Marcelo Cordeiro. A revista estava tão comprometida com o governo federal que não ouviu o Ulysses Guimarães.
            E na mesma matéria a Revista que Ulysses Guimarães não conseguia unir o partido e que a única pauta do partido era a “campanha das diretas já”. Vejam que a revista desde o início tentou esvaziar a maior campanha cívica já ocorrida no Brasil. A Campanha ainda não tinha caído no gosto popular e os leitores da revista ainda não sabiam do sucesso que esta campanha seria para o Brasil e diante de tanto desinformação a Revista poderia manter sua opinião a favor dos interesses do Planalto.
            E a Revista não ficou por aí e com o intuito de dividir o partido insinua que o Governador do Pará, Jader Barbalho se reunir secretamente com o candidato a Presidente pelo PDS, Paulo Maluf. E sem obedecer a regra básica do jornalismo que é ouvir os atores da matéria faz o registro e não ouve o Governador do Pará sobre este encontro, se é que ocorreu.

Figura 1 – Jader Barbalho demitiu Xerfan da Prefeitura quando
soube que o mesmo reuniu em segredo com Passarinho
           
            No ano de 1983 o Brasil atravessava forte crise financeira e o governo central sabia que teria que reunir com o PMDB para aprovar alguma medida que contivesse a crise econômica. Na edição 780 de 17.08.1983, página 44, a revista Veja continuou omitindo qualquer notícia sobre a campanha das diretas, porém, ao reportar sobre a reunião do PMDB sobre a crise econômica foi praticamente obrigada a informar os seus eleitores que o Governador Franco Montoro do Estado de São Paulo condicionou sentar com o Palácio do Planalto sobre a crise desde que fosse também tratado a questões das Eleições Diretas.
            A revista Veja utilizou a sua forte influência sobre a ala intelectual do Brasil para sempre colocar em sua pauta editorial problemas complexos do Brasil na área econômica, social, política e até religiosa. A intenção da revista era desinformar e as articulações sobre a Emenda Dante de Oliveira não mereciam nenhum registro. Até mesmo quando a revista do dia 779 de 10.08.1983 dedicou suas páginas amarelas para entrevistar Ulysses Guimarães não foi feita nenhuma pergunta sobre as eleições diretas, Ulysses sabia que não seria feita tal pergunta, porém, o habilidoso Ulysses aceitou a entrevista para mostrar ao governo que o PMDB tinha uma proposta concreta para tirar o país da crise. Registre-se que o Senador Fernando Henrique Cardoso (PMDB/SP) ajudou na elaboração deste plano econômico, que consistia em moratória parcial dos juros da dívida externa.
            O Presidente João Batista Figueiredo (PDS) foi para os Estados Unidos para tratamento de saúde e na ausência do Chefe do Executivo Aureliano Chaves, Paulo Maluf e Mário Andreaza não mediram esforços para se lançarem candidatos a Presidente do Brasil e a Revista Veja na edição 785 do dia 21.09.1983 (Edição 785, p. 37) noticia que Paulo Maluf esteve em campanha na cidade de Belém e que obteve 13 votos no Pará para a eleição na Convenção do PDS. E em que pese a revista ainda de estar a serviço do planalto e não dedicar uma nota de rodapé para a campanha das Diretas já que já estava no Congresso e na ruas e o Deputado Federal Freitas Nobre do Ceará e líder do PMDB na Câmara ao ser indagado sobre a candidatura de Maluf foi direto: “O PMDB vai lutar por eleições diretas”. E na mesma edição a Revista fazendo futurologia disse que Ulysses Guimarães conduzia o partido como Ditador e que ele perderia a Presidência do partido na Convenção do Partido (VEJA 785, 1983, p. 37).
            O PMDB vinha sendo tratado pela Revista Veja como um partido nanico e sem expressão embora os fatos demonstrassem o contrário já que nas eleições para governador o PMDB elegeu vários governadores e a oposição pela primeira vez tinha maioria na Câmara, e, além disso, a Revista se empenhava em ridicularizar a imagem de Ulysses junto à opinião pública. Porém, a Revista tinha consciência que uma mentira é difícil de ser sustentada por um longo período e na Edição 786 do dia 28.09.1983 em respeito à inteligência de seus leitores foi obrigado a reconhecer o tamanho da oposição e principalmente de Ulysses Guimarães e estampou na primeira página a primeira derrota do Governo no Congresso Nacional que foi a rejeição do Decreto nº 2024.
            O Decreto nº 2024 tratava de uma nova política salarial que traria muitas perdas salariais aos trabalhadores e aos servidores e o Planalto dava como certa a aprovação deste Decreto, porém, não contava com a boa articulação e liderança de Ulysses que conseguiu que o Decreto fosse rejeitado. E Ulysses foi levado à capa da revista.
            O Deputado paraense Sebastião Curió do PDS tinha grande prestígio junto a população do sul do Pará em especial a categoria dos garimpeiros. Serra Pelada era importante área de exploração de ouro no sul do Pará e um grande número de pessoas do país inteiro migrou para o Pará com o intuito de enriquecer no garimpo para muitos este sonho virou um pesadelo, contudo, a oportunidade em melhorar de vida no minério foi um sonho muito bem explorado pelos políticos da época.
            Na revista Veja de número 788, de 12.10.1983 foi dado amplo destaque a prorrogação da autorização da exploração do ouro em serra pelada e em Brasília Sebastião Curió foi carregado pelos 2.000 garimpeiros que estiveram na capital federal para a votação do Decreto.
            O final do exercício de 1983 vai se aproximando a revista destaca a crise econômica do país e na Edição do dia 02.11.1983 em sua página 34 registra um debate entre 10 governadores onde os mesmos discutiam a crise no Brasil e as eleições diretas e quem compareceu neste debate em face da sua importância no cenário nacional foi o Governador Jader Barbalho do Pará. E na mesma edição o Presidente Figueiredo já reconhecia a possibilidade de haver eleições diretas no Brasil. Diante da declaração do próprio Chefe da nação ficava difícil a Revista Veja continuar em sua linha omissiva em relação à possibilidade da aprovação da Emenda Dante de Oliveira.
            A submissão aos fatos pela Revista Veja nº 792 em relação às eleições diretas foi materializada com a capa de sua edição do dia 09.11.1983 onde estampou a manchete: “As diretas no páreo”. Na página 38 em sua linha de panfleto do governo noticia a inauguração da estrada de ferra de Carajás que liga o Pará ao Maranhão e que Figueiredo mais uma vez admite que poderá haver eleições diretas no Brasil.
            E a Revista na mesma oportunidade festiva da inauguração demonstrou que não iria facilitar as coisas para a oposição e nem seria a cereja do bolo da Emenda Dante de Oliveira e plantou a semente da discórdia no PMDB ao tornar públicas as brigas internas entre Tancredo Neves e Ulysses Guimarães noticiando que ambos lutam pela hegemonia do partido. Registre-se que a revista não ouviu a versão dos atores envolvidos.
            Mário Sérgio Conti, era jornalista e escritor consagrado e ocupava importante espaço na revista Veja e na mesma edição 792 ao falar sobre a crise econômica do Brasil decretou que a solução para tal crise só com eleições diretas.
            O rombo da previdência social já beirava os 420 bilhões de cruzeiros e o governo brasileiro não encontrava mecanismos para resolver a crise e o Presidente Figueiredo confiava muito no paraense Jarbas Passarinho, e o mesmo foi chamado para assumir a pasta e a revista Veja do dia 16.11.1983 deu destaque de capa para a nomeação de Passarinho. E na página 38 o já Ministro Jarbas comemora a nomeação junto com a inseparável esposa Ruth Passarinho.
            Na Edição 796 do dia 07.12.1983 da Revista Veja em sua página 42 houve importante destaque de que o PDS partido do governo tinha fechado questão de que não haveria eleições diretas no Brasil e na matéria sobre o assunto a revista semanal deu amplo espaço para a atuação do Deputado Federal do Pará, Gerson Peres registrando que o parlamentar paraense garantiu que a Emenda Dante de Oliveira não passaria nem na Câmara dos Deputados e exibia a assinatura de vários Deputados (300) de que os mesmos votariam contra a Emenda Dante. Gerson Peres era aguerrido no que concerne os interesses do governo e o mesmo trabalhou muito nos bastidores para que a Emenda Dante de Oliveira e ao final saiu vitorioso, contudo, vários nomes de sua lista no dia da votação traíram o governo bem como Peres e votaram a favor da Emenda Dante de Oliveira. Porém, ao final Gerson Peres e o Planalto venceram.
            Já foi dito e mencionado a campanha de desinformação da Revista Veja em todo o período da Campanha das Diretas, os comícios com multidões, o PDS dividido em apoiar a Emenda Dante de Oliveira, as reuniões no Palácio do Planalto sobre as eleições diretas, no resumo que a revista fez sobre o ano de 1983 não constou uma linha sobre as Eleições Diretas, qualquer notícia sobre as eleições diretas era tratada com banalidade, todos estes fatos eram solenemente ignorado pela Revista Semanal, porém, uma mentira pode ser lançada ao público o problema é sustentar esta mentira por um longo período e a Revista Veja não fugiu a regra e na edição 802 do dia 18.01.1984 teve que ceder a pressão dos seus leitores e foi obrigado a colocar em sua campa a seguinte manchete: “A CAMPANHA DAS DIRETAS ESTÁ NAS RUAS”.
            O governo federal contava com uma imprensa comprometida com a pauta do governo no que concerne às eleições diretas e os anúncios e propagandas na grande mídia era uma forma de manter a imprensa controlada. O que o governo não contava é que em que pese à importância da verba oficial para a receita de qualquer empresa da imprensa a credibilidade e a opinião dos leitores também é um patrimônio que uma empresa do ramo da imprensa não pode desprezar. E a revista Veja era semanal e gozava de muito prestígio junto à classe pensante do país e a grande maioria de seus leitores não eram políticos e sim pessoas preocupadas com suas vidas e com a saúde financeira do país. Um brasileiro quando está desempregado e não pode pagar suas contas a ideologia deste cidadão pouco importa a ideologia do mesmo, o que interessa para o mesmo é que o governo que é o responsável pela sua situação e quando este pai de família percebe que existe a possibilidade dele alterar àquela situação que é podendo votar para Presidente o mesmo vai para a rua gritar pela aprovação da emenda Dante de Oliveira.
            Este caráter suprapartidário da campanha das diretas já que demorou a Revista Veja perceber e quando o percebeu não quis desagradar o planalto central. E no dia 01.12.1984 a Revista Veja na Capa estampou a imagem de uma multidão insatisfeita com o governo e indo as ruas dizendo que queria “eleições diretas já”.
            As páginas amarelas da Revista Veja sempre era um espaço disputado por qualquer autoridade intelectual ou política e nesta edição histórica da edição 804 a revista dedicou ao locutor dos comícios, o imortal Osmar Santos e na mesma revista a paraense Fafá de Belém conseguiu expandir o seu sucesso, pois, a revista também creditou na cantora paraense o sucesso da campanha das diretas.
            A omissão da revista até a edição 804 só enganava os seus leitores, pois, as ruas lotadas a cada comício contrariavam a intenção da revista em diminuir a campanha das diretas e nesta edição a revista tentou e não conseguiu demonstrar uma suposta independência e tratou o assunto das diretas como se já fosse a sua pauta rotineira. E nesta edição histórica a revista dedicou mais de 10 páginas para tratar de assunto e adotou o bom jornalismo e ouviu a opinião contrária e concedeu espaço ao Deputado Paraense Gerson Peres que com coragem disse que a Emenda Dante de Oliveira seria votada com as galerias do Congresso vazias.
            O Brasil vivia ano de eleição em 1984 mesmo que a Emenda Dante de Oliveira que restabeleceria as eleições diretas para Presidente não fosse aprovada o Brasil teria um novo Presidente naquele ano e a Revista Veja aproveitou este momento para ao invés de enfatizar a proximidade da votação da Emenda Dante de Oliveira preferiu dedicar as páginas principais de sua revista para dar espaço aos presidenciáveis, tais como: Paulo Maluf, Mario Andreaza, Aureliano Chaves e outros.
Na Edição do dia 14.03.1984 na página 29 o Ministro da Previdência Jarbas Passarinho com experiência parlamentar deu o conselho para os seus colegas da Câmara derrubarem a Emenda Dante de Oliveira, o paraense era Senador e sabia que a Emenda tinha que ser derrubada na Câmara dos Deputados, pois, se a mesma chegasse ao Senado dificilmente o governo conseguiria derrubar a Emenda, pois, o experiente político percebeu que a população estava engajada na campanha e se houvesse a vitória na Câmara o clamor social iria se elevar e os Senadores não iriam ficar contra a vontade da população. E os Senadores tinham o desejo de renovar os seus mandatos e se posicionar contra as eleições diretas seria um suicídio eleitoral. Por isso Jarbas Passarinho sugeriu que fosse dado quórum mínimo na votação e seria facilmente derrotada a Emenda.
A revista Veja foi obrigada a reconhecer a liderança nacional exercida por Ulysses Guimarães na campanha das Diretas já e até a edição de número 815 a revista sempre tratou Ulysses como velho, antiquado e sem qualquer possibilidade de mobilizar a massa, porém, a verdade dos fatos obrigou a Revista a dar importância ao velho Ulysses e em sua matéria de capa disparou o título que o Brasil já havia conferido ao Dr. Ulysses, “o Senhor Diretas”.
Na homenagem a Ulysses a revista detalhou o passo a passo da campanha das diretas, e todos os obstáculos enfrentados pelo MDB para reunir todos os partidos e destacou que Ulysses percorreu mais de 40.000 km e compareceu a quase todos os comícios e a população naturalmente sem qualquer influência sabia que o sonho de votar para Presidente era possível graças ao empenho de Ulysses Guimarães.
Jorge Arbage Deputado Federal (PDS/PA) na página 39 em que a revista Veja só fazia elogios a Ulysses Guimarães disse a revista que era muito difícil a Câmara dos Deputados derrubarem a Emenda das Diretas, e o Senado não teria como votar contra.
A Emenda Dante de Oliveira foi rejeitada e o PMDB não teve tempo a perder e nem chorar com a população e Ulysses Guimarães já reuniu os líderes do partido para ganhar do governo no terreno político do PDS, ou seja, no Colégio Eleitoral e na primeira reunião do partido contou com a presença de Jader Barbalho onde foi traçada a estratégia de derrotar o PDS no plenário do Congresso. A revista Veja registrou essa reunião em sua edição 817, do dia 02.05.1984, página 22.

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